Lars abriu os olhos para se deparar com um quarto escuro. O seu quarto. Frio e vazio, tirando a mobília recorrente e a sua presença inexpressiva. Levantar é tarefa difícil, são 6:47 e Lars sabe que está atrasada. "Sucumbir à tentação e ficar na cama não faria mal, só por um dia", pensa ela pelo terceiro dia seguido, hoje não o faz.
Levanta-se, liga a luz do pequeno candeeiro disposto ao lado da sua cama, senta-se e bebe um golo de água da garrafa ao seu lado. Está frio, o contraste do calor do sono com a água causam arrepios, e mais uma vez considera voltar-se a deitar. "Se calhar não seria assim tão mau, só mais um dia."
Reúne todas as forças que tem e as suas pernas movem-se. Está de pé. Prepara-se para sair do quarto. A casa está escura, a escuridão imensa do corredor à sua frente relembra-a que estão todos a dormir, e que ela está sozinha. porém, de nada adianta saber que está fisicamente sozinha, quando se sente sozinha em qualquer momento.
Avança e faz o caminho até à casa de banho. Ao deparar-se com o seu reflexo doente no espelho, Lars deita uma lágrima. "Ninguém diria que eu chegaria a este ponto, onde é que eu me perdi? Como é que eu me recupero?". Olhos inchados, pele pálida e o cabelo despenteado passaram a ser comuns no seu reflexo, e, de alguma forma, ela não se reconheceria de outra forma.
Acabando o que tinha o para fazer na casa de banho, Lars abandona a divisão e segue de novo para o quarto, já não está escuro, tem um cheiro esquisito como se não fosse aberto há muito tempo, e então Lars decide abrir a janela. Ainda é de noite, nesta madrugada de Outubro, terça feira. Abrir a janela soube lhe bem, ela sabe que fez o correto ao tê-la aberto. Então, segue para o roupeiro e prepara se para mais uma escolha, a roupa a vestir.
Qualquer esforço que ela alguma vez tenha depositado na escolha de uma peça de roupa, é uma memória distante. Qualquer esforço depositado na sua aparência também é uma memória distante. "De que serve se vamos todos morrer um dia?". Mas hoje, para quebrar a regra, Lars tirou um par de calças de ganga, que já não usava há meses, uma camisola de mangas e vestiu-se. Nestas roupas, dá para se ver claramente que ela pesa muito pouco, ela sabe que não tem hábitos alimentares saudáveis, mas contrariar isso é esforço demais.
"Não vale a pena.", seria o inicial pensamento, mas hoje, talvez em forma de protesto à sua própria mente, ela chega à cozinha e decide comer. Uma decisão deveras impressionante, tomar o pequeno-almoço estaria fora de questão num dia normal. Lars escolhe uma tigela de cereais de chocolate, algo que ela sabe que num outro dia a deixaria mal-disposta, mas ainda assim come tudo. Levanta-se, pega na mochila e sai porta fora.
São 7:22 e o comboio chega às 7:28, ela tem tempo e é por isso que assim que sai pela porta de casa, pára e olha ao seu redor. Os seus olhos fecham-se com a pouca claridade que ela não via há dias, e o seu nariz parece identificar uma série de cheiros novos, muito agradáveis, por sinal. No caminho para a estação, Lars vai olhando à sua volta, a agitação de quem precisa de chegar a tempo ao trabalho é vívida e ela sabe que outrora havia sido ela, aquela pessoa a correr animada porque se atrasou. "Onde é que eu me perdi?".
Chega ao comboio, senta-se e desta vez escolhe não pôr os fones, escolheu contrariar aquela voz que a levaria a ouvir as mesmas músicas que ouve sempre, as músicas que a relembram daquilo que ela, hoje, não se quer lembrar. Desta vez, tirou um manual da escola, determinada a apanhar a matéria que perdeu esta última semana nesta meia hora de viagem no comboio. Na agitação habitual, Lars encontra conforto. E é esse conforto que lhe dá forças para se levantar ao chegar ao seu destino, sair, e seguir o caminho até à escola.
"Não foi assim tão mau.", as suas pernas demonstram-se cansadas de fazer este pequeno caminho e ela escolhe não ignorar este pedido do seu corpo, passa por um café e pede qualquer coisa para comer, no final de contas, a mente pode-nos enganar, mas o corpo é genuíno. Come e segue de volta para a escola.
A escola onde ninguém a conhece, onde passa despercebida até chegar à sua sala e ver os seus amigos, que não sabiam dela há uns dias, se mostrarem genuínamente contentes com a sua presença. Quem diria que ela fez falta, huh? Posso garantir-vos que ela negaria isso num outro dia qualquer, mas hoje não. Hoje, Lars contentou-se com o que conseguia fazer, concentrou-se o melhor que pôde nas coisas positivas do dia, puxando alguns limites saudáveis e quebrou a sua própria regra.
Somos todos capazes se tentarmos, não nos devemos contentar com as coisas más da nossa vida mesmo que haja conforto no habitual. Há mais para a vida que aquilo que nos convencemos que há. Todos os dias deveriam ser exceções à regra e deveríamos puxar os nossos limites e tentar fazer uma coisa boa por nós mesmos, sem exceção, mesmo uma pequena coisa, como tomar banho, trocar de roupa, abrir a janela, já fazem uma diferença gigantesca.
"Não podemos alterar o passado, mesmo que não te orgulhes dele, faz parte da tua história e é com isso que aprendes, amanhã é um novo dia cheio de possibilidades, queres mesmo deitá-las a perder para ficares o terceiro dia seguido na cama? Custa minimamente ao levantar, mas depois de o fazeres, vais querer continuar, até ao dia em que não acordares."
~K